Gregório de Nissa: o batismo

Quando, portanto, eles ouvem esses e outros discursos semelhantes e recebem uma primeira instrução sobre a forma [do Batismo], quando se diz a eles que uma oração a Deus, a invocação da graça celeste, e a água e a fé, são meios com os quais se realiza o mistério da regeneração, mostram-se céticos considerando a realidade visível, pois, quando se realiza de modo material, não é adequado à promessa divina. Como é possível – dizem – que uma oração e uma invocação da potência divina pronunciada sobre a água se tornem princípio e causa de vida para os iniciados?

(...) A resposta que naturalmente nos será dada à pergunta de como é possível que o homem se forme daquela semente é a mesma que daremos quando nos perguntam sobre a regeneração mediante a água. Com efeito, no primeiro caso, para cada uma das pessoas interrogadas, é fácil responder que aquela semente se torna homem pela potência divina, sem a qual a semente seria inativa e ineficaz. Se, portanto, neste caso, não é o elemento material que forma o homem, mas é a potência divina que transforma o elemento sensível em natureza humana, seria extremamente insensato reconhecer em Deus uma tão grande potência em um caso e pensar, no segundo caso, que a divindade é impotente para realizar seu desígnio (Grande Catequese, XXXIII, 1-3).

Gregório de Nissa sobre a morte de Cristo

Conhecendo com exatidão o mistério, alguém poderia talvez dizer mais justamente que a morte [de Cristo] não ocorreu por causa do nascimento, mas, antes, o contrário, que por causa da morte Deus assumiu o nascimento; não pela necessidade de viver se submeteu ao nascimento corporal aquele que é Eterno, mas pela vontade de reconduzir-nos da morte à vida. Portanto, uma vez que era necessário reconduzir da morte à vida nossa natureza toda inteira, Deus, tendo se inclinado sobre o nosso cadáver para estender, por assim dizer, sua mão sobre o ser que jazia, aproximou-se tanto da morte que entrou em contato com o estado cadavérico, e com seu próprio corpo deu à natureza o princípio da ressurreição, pois com seu poder ressuscitou conjuntamente todo o homem.

Com efeito, como o homem no qual Deus se encarnara, e que, mediante a ressurreição, fora elevado junto com divindade, não viera de outro lugar senão da massa que é a nossa, da mesma maneira que para o nosso corpo a atividade de um só dos órgãos dos sentidos provoca uma sensação comum ao conjunto do organismo que está unido a este órgão, assim, constituindo toda a natureza como um só ser vivo, a ressurreição de um membro se estende a todo o conjunto, e da parte se comunica ao todo em razão da continuidade e unidade da natureza. O que há, portanto, de estranho em nossa doutrina acerca do mistério [da encarnação], quando aprendemos que aquele que está de pé se inclina sobre aquele que caiu para levantá-lo de sua queda?

O mistério da cruz Se, pois, a cruz encerra alguma outra doutrina mais profunda, talvez o saibam os versados nas coisas ocultas. Em todo caso, isto é o que nos chegou da tradição (Grande Catequese, XXXII, 3-4).

Gregório de Nissa sobre a dimensão cósmica da Cruz

Com efeito, é próprio da divindade penetrar todas as coisas e estender-se em todas as partes da natureza dos seres vivos; porque nada poderia subsistir no ser se não permanece naquele que é; e, de outro lado, a natureza divina existe no sentido próprio e primeiro, e a subsistência dos seres exige categoricamente que se acredite em sua presença em todos os seres. Tudo isso o aprendemos por meio da cruz, cuja figura se distribui em quatro partes, de sorte que, partindo do centro, para o qual tudo converge, se contam quatro prolongamentos; aprendemos o seguinte: aquele que sobre ela foi estendido no momento oportuno segundo o plano de salvação através da morte é o mesmo que estreita e ajunta a si mesmo o universo reunindo mediante a sua pessoa as diversas naturezas dos seres em uma só sinfonia e uma só harmonia.

(...) Portanto, uma vez que toda a criação é orientada para Ele e está ao redor d’Ele, e por meio d’Ele mantém sua coesão, pois graças a Ele as coisas do alto estão estreitamente unidas àquelas de baixo e as dos lados entre si, não somente deveremos ser induzidos ao conhecimento de Deus mediante o ouvir, mas também a vista deveria ensinar-nos as concepções mais elevadas. Daqui é donde parte o grande Paulo quando inicia aos mistérios o povo de Éfeso, infundindo naqueles fiéis com o seu ensino a capacidade de conhecer qual é a largura, o comprimento, a altura, a profundidade (Grande Catequese, XXXII, 6-8).