Gregório de Nissa sobre a morte de Cristo

Conhecendo com exatidão o mistério, alguém poderia talvez dizer mais justamente que a morte [de Cristo] não ocorreu por causa do nascimento, mas, antes, o contrário, que por causa da morte Deus assumiu o nascimento; não pela necessidade de viver se submeteu ao nascimento corporal aquele que é Eterno, mas pela vontade de reconduzir-nos da morte à vida. Portanto, uma vez que era necessário reconduzir da morte à vida nossa natureza toda inteira, Deus, tendo se inclinado sobre o nosso cadáver para estender, por assim dizer, sua mão sobre o ser que jazia, aproximou-se tanto da morte que entrou em contato com o estado cadavérico, e com seu próprio corpo deu à natureza o princípio da ressurreição, pois com seu poder ressuscitou conjuntamente todo o homem.

Com efeito, como o homem no qual Deus se encarnara, e que, mediante a ressurreição, fora elevado junto com divindade, não viera de outro lugar senão da massa que é a nossa, da mesma maneira que para o nosso corpo a atividade de um só dos órgãos dos sentidos provoca uma sensação comum ao conjunto do organismo que está unido a este órgão, assim, constituindo toda a natureza como um só ser vivo, a ressurreição de um membro se estende a todo o conjunto, e da parte se comunica ao todo em razão da continuidade e unidade da natureza. O que há, portanto, de estranho em nossa doutrina acerca do mistério [da encarnação], quando aprendemos que aquele que está de pé se inclina sobre aquele que caiu para levantá-lo de sua queda?

O mistério da cruz Se, pois, a cruz encerra alguma outra doutrina mais profunda, talvez o saibam os versados nas coisas ocultas. Em todo caso, isto é o que nos chegou da tradição (Grande Catequese, XXXII, 3-4).