CLEMENTE DE ROMA (c. 35 – c. 99)
Percorramos todas as gerações e aprendamos que, de geração em geração, o Senhor deu possibilidade de arrependimento (metanoias topon) a todos aqueles que queriam converter-se a ele. Noé pregou o arrependimento, e os que o escutaram foram salvos. Jonas anunciou a catástrofe aos ninivitas, e estes se arrependeram de seus pecados; propiciaram a Deus com suas súplicas e obtiveram a salvação, embora fossem estrangeiros em relação a Deus.
~ Epístola aos Coríntios (7)
Unamo-nos, portanto, aos que receberam a graça de Deus; revistamo-nos da concórdia, conservando-nos humildes, castos, longe dos murmuradores e dos maledicentes, justificados com obras e não palavras (ergois dikaioumenoi, kai mē logois). [...] Portanto, todos foram glorificados e engrandecidos, não por eles mesmos, nem por suas obras, nem pela justiça dos atos que praticaram, e sim por vontade dele. Por conseguinte, nós que por sua vontade fomos chamados em Jesus Cristo, não somos justificados por nós mesmos (ou di’ hēautōn dikaioumetha), nem pela nossa sabedoria, piedade ou inteligência, nem pelas obras que realizamos com pureza de coração (hosiotēti kardias), e sim p
ela fé (alla dia tēs pisteōs); é por ela que Deus Todo-poderoso justificou todos os homens desde as origens. A ele seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém. ~ Epístola aos Coríntios (30, 32)
Somos felizes, caríssimos, se praticamos os mandamentos de Deus na concórdia e no amor (en agapē), a fim de que, pelo amor, nossos pecados sejam perdoados. Pois está escrito: “Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos. Feliz o homem, do qual o Senhor não considera o pecado e em cuja boca não existe engano”. Essa bem-aventurança é para os que Deus escolheu por meio de Jesus Cristo nosso Senhor. A ele, a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
~ Epístola aos Coríntios (
50)
JUSTINO MÁRTIR (c. 100 – c. 165)
Pois a bondade e a benevolência de Deus, e Suas riquezas ilimitadas, consideram justo (dikaion hēgeitai) e sem pecado (anamartēton) o homem que, como Ezequiel diz, se arrepende dos pecados; e consideram pecador, injusto e ímpio o homem que desce da piedade e justiça para a injustiça e impiedade. Por isso também nosso Senhor Jesus Cristo disse: “No estado em que vos encontrar, nisso vos julgarei (en hois an hymas katalabō, en toutois kai krinō)”.
~ Diálogo com Trifão (Cap. 47)
EPÍSTOLA A DIOGNETO (c. 130 – 200)
Quando Deus dispôs tudo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas também os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça (ton nyn tēs dikaiosynēs); para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino d
e Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso. Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua bondade e o seu poder. Ó, imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com misericórdia t
omou para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos ímpios (ton hagion hyper tōn anomōn), o inocente pelos maus, o justo pelos injustos (ton dikaion hyper tōn adikōn), o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais. De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça (dikaiosynē)? Por meio de quem poderíamos
ter sido justificados (dikaiōthēnai) nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus (monō tō huiō tou theou)? Ó, doce troca (ō tēs glykeias antallagēs), ó obra insondável, ó inesperados benefícios! A injustiça de muitos é reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros (dikaiosynē henos pollous anomous dikaiōsē). Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o Salvador capaz de salvar até mesmo o impossível. Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e o considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida. ~ Epístola a Diogneto (Cap. 9)
IRINEU DE LYON (c. 130 – c. 202)
E que o homem não foi justificado por essas coisas [circuncisão e sábados], mas que elas foram dadas como um sinal para o povo, este fato o demonstra: que o próprio Abraão, sem circuncisão e sem observância de sábados, “creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (reputatum est ei ad iustitiam); e ele foi chamado o amigo de Deus”. Então, novamente, Ló, sem circuncisão, foi tirado de Sodoma, recebendo a salvação de Deus. Assim também fez Noé, agradando a Deus, embora fosse incircunciso... Enoque, também, agradando a Deus sem circuncisão... Além disso, toda a restante multidão daqueles homens justos que viveram antes de Abraão, e daqueles patriarcas que precederam Moisés, foram justificados independentemente das coisas mencionadas acima e sem a lei de Moisés.
(...)
E que o Senhor não revogou os preceitos naturais da lei (naturalia legis), pelos quais o homem é justificado — os quais também aqueles que foram justificados pela fé (per fidem iustificati) e que agradaram a Deus observaram antes da entrega da lei — mas que Ele os estendeu e cumpriu, é demonstrado por Suas palavras: “Pois”, observa Ele, “foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Mas eu vos digo: qualquer que olhar para uma mulher para a cobiçar, já cometeu adultério com ela em seu coração”. E novamente: “Foi dito: Não matarás. Mas eu vos digo: qualquer que se irar contra seu irmão sem motivo, estará sujeito a julgamento”. E: “Foi dito: Não jurarás falso. Mas eu vos digo: Não jureis de maneira nenhuma; mas seja o vosso falar: Sim, sim; Não, não”.
~ Adversus Haereses (Livro IV, 16, 2; 13, 1)
ORÍGENES DE ALEXANDRIA (c. 185 – c. 253)
Assim, em conexão com o perdão das iniquidades e a cobertura dos pecados, e o fato de que o Senhor não imputa pecados, o Apóstolo adequadamente diz que apenas sobre a base de que ele crê naquele que justifica o ímpio (qui iustificat impium) é que a justiça será imputada a um homem, mesmo se ele ainda não produziu as obras da justiça (etiamsi non
habuerit opera). Pois a fé que crê naquele que justifica é o começo do ser justificado por Deus. E essa fé, quando é justificada, é firmemente estabelecida no solo da alma como uma raiz que recebeu chuva (velut radix recepto imbre), de modo que começa a ser cultivada pela lei de Deus e ramos nascem dela, os quais trazem o fruto das obras. A raiz da justiça, portanto, não cresce a partir das obras, mas é o fruto das obras que cresce da raiz da justiça (radix iustitiae ex operibus non crescit, sed ex radice iustitiae fructus operum crescit); raiz esta, é claro, de justiça que Deus atribui mesmo sem obras (sine operibus). ~ Commentarium in Epistolam ad Romanos (Livro IV, 1)
CIPRIANO DE CARTAGO (c. 210 – 258)
E, com respeito a Abraão, aquela bênção anterior pertencia ao nosso povo. Pois, se Abraão creu em Deus e isso lhe foi creditado como justiça (deputatum est illi ad iustitiam), certamente todo aquele que crê em Deus e vive pela fé é considerado justo (justus invenitur), já é abençoado no fiel Abraão e é apresentado como justificado (iustificatus ostenditur); como prova o bendito Apóstolo Paulo, quando diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão. Mas a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão que todas as nações seriam abençoadas nele; portanto, os que são da fé são abençoados com o fiel Abraão”. Por isso, no Evangelho, encontramos que “das pedras são suscitados filhos a Abraão, isto é, são reunidos dentre os gentios”.
~ Epístola LXII
HILÁRIO DE POITIERS (c. 310 – 367)
'No qual também fostes circuncidados com uma circuncisão não feita por mãos, no despojar do corpo da carne, mas com a circuncisão de Cristo (circumcisione Christi), tendo sido sepultados com Ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados com Ele pela fé na operação de Deus (fidem operationis Dei), que O ressuscitou dos mortos'. Somos circuncidados não com uma circuncisão carnal, mas com a circuncisão de Cristo, isto é, renascemos em um novo homem; pois, sendo sepultados com Ele em Seu batismo, devemos morrer para o velho homem, porque a regeneração do batismo tem a força da ressurreição (vis est resurrectionis). A circuncisão de Cristo não significa o despojar do prepúcio, mas o morrer inteiramente com Ele, e por essa morte viver, de agora em diante, inteiramente para Ele. Pois ressuscitamos n’Ele pela fé em Deus, que O ressuscitou dos mortos; pelo que devemos crer em Deus, por cuja operação Cristo foi ressuscitado dos mortos, pois nossa fé ressurge n’Ele e com Cristo.
~ De Trinitate (Livro IX, 9)
Ele estabelece todo o mérito da fé (fidei meritum) na confissão de uma veneração piedosa. A justiça que é da fé (iustitia quae ex fide est) diz assim: ‘Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, para trazer do alto a Cristo). Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, para fazer subir a Cristo dentre os mortos). Mas que diz a Escritura? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos: porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo’. A fé aperfeiçoa o homem justo (iustum fides perficit): como está escrito: ‘Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça’ (reputatum est ei ad iustitiam). [...] Para a fé piedosa, que confia implicitamente na onipot
ência de Deus, os limites da fraqueza humana não são barreira. Desprezando tudo o que é débil e terreno em si mesma, ela crê na promessa divina, ainda que esta exceda as possibilidades da natureza humana. Nada é mais justo do que a fé (nihil est fide iustius). Pois, assim como na conduta humana são a equidade e a moderação que recebem nossa aprovação, o que é mais justo para o homem, em relação a Deus, do que atribuir onipotência (omnipotentiam ei tribuere) dAquele cujo poder ele percebe ser sem limites? ~ De Trinitate (Livro X, 68)
CIRILO DE JERUSALÉM (c. 313 – 386)
Pois há um tipo de fé, a dogmática (to dogmatikon), que envolve um assentimento da alma (sygkatathesis tēs psychēs) sobre algum ponto particular; e ela é proveitosa para a alma, como diz o Senhor: ‘Quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo’. Oh, a grande bondade de Deus! Pois os justos levaram muitos anos para agradá-Lo; mas o que eles conseguiram obter por muitos anos de bem-agradar (euarestēseōs), isso Jesus agora te concede em uma única hora. Pois, se creres que Jesus Cristo é o Senhor e que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo e transportado para o Paraíso por Aquele que ali introduziu o ladrão. E não duvides se isso é possível; pois Aquele que, neste sagrado Gólgota, salvou o ladrão após uma única hora de crença, o mesmo salvará a ti também ao creres.
Mas há um segundo tipo de fé, que é concedida por Cristo como um dom da graça (charismatikon). [...] Esta fé, dada pela graça do Espírito, não é meramente doutrinária (ou monon dogmatikē), mas também opera coisas acima do poder humano. Pois quem quer que tenha esta fé, dirá a este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele passará. Pois sempre que alguém disser isso em fé, crendo que acontecerá e não duvidando em seu coração, então ele recebe a graça.
~ Catecheses (V, 10-11)
GREGÓRIO DE NISSA (c. 335 – c. 395)
É impossível aproximar-se de Deus, a menos que a fé medeie e traga a alma que busca à união com a natureza incompreensível de Deus (akatalepton physin). Pois, deixando para trás a curiosidade que provém do conhecimento (gnostikēn polypragmosynēn), Abraão, diz o Apóstolo, “creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (elogisthē autō eis dikaiosynēn). “Ora, não foi escrito por causa dele”, diz o Apóstolo, “mas por nossa causa”, para que Deus credite aos homens por justiça a sua fé (pistin), e não o seu conhecimento (gnōsin).
~ Contra Eunômio (Livro II)
AMBRÓSIO DE MILÃO (c. 340 – 397)
Grandemente, parece-me, você foi movido pela lição do Apóstolo, tendo ouvido: “Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há transgressão” [Romanos 4:15]. Portanto, você entendeu correto perguntar por que a Lei foi promulgada, se de nada é proveitosa e, ao contrário, é injuriosa ao operar ira e trazer transgressão. De fato, conforme sua questão levanta, é certo que a Lei, que foi promulgada por Moisés, não era necessária. Pois se os homens tivessem sido capazes de cumprir a lei natural (lex naturalis), que nosso Deus e Criador implantou em nossos peitos, não haveria necessidade da Lei, a qual, escrita em tábuas de pedra, tendia mais para entrelaçar e acorrentar a fraqueza de nossa natureza do que para liberá-la e alargá-la. [...]
Essa lei não é escrita, mas inata (innata); não é adquirida pela leitura, mas floresce como de uma fonte natural, cresce em cada coração, e as mentes dos homens bebem dela. [...] Adão quebrou essa lei, buscando assumir para si algo que não tinha recebido. Por sua desobediência incorreu em culpa, e pela arrogância caiu em transgressão. [...] Assim que pela desobediência a autoridade da lei da natureza foi corrompida e expulsa, a Lei escrita foi necessária; para que o homem, tendo perdido tudo, pudesse pelo menos recuperar uma parte; encontrando pelo estudo o conhecimento daquilo que possuía, mas perdeu. [...]
A Lei foi publicada, primeiramente para tirar toda desculpa, para que o homem não dissesse: não conheço o pecado, pois não recebi nenhuma regra pela qual evitá-lo. E, segundo, para que todo o mundo se tornasse culpado diante de Deus pela confissão do pecado. [...] O pecado abundou pela Lei porque pela Lei vem o conhecimento do pecado, e assim tornou-se prejudicial para mim, isto é, conhecer aquilo que eu não poderia evitar (por minha fraqueza); é bom conhecer para evitar, mas conhecer é injurioso se não posso evitar. Desse modo, o efeito da Lei foi mudado para mim em seu oposto; entretanto, pelo próprio aumento do pecado, ela tornou-se útil para mim, pois fui humilhado (humiliatus sum). [...]
O mundo tornou-se sujeito a Ele pela Lei, porque todos foram levados ao julgamento pelas prescrições da Lei, e ninguém é justificado pelas obras da Lei (ex operibus legis nemo iustificatur); em outras palavras, porque o conhecimento do pecado vem da Lei, mas a culpa não é remida. [...] Mas, quando o Senhor Jesus veio, Ele perdoou a todos os homens os pecados que não poderiam escapar e cancelou o decreto existente contra nós (chirographum) por Seu sangue. É isso que Ele diz: Pela Lei abundou o pecado, mas a graça superabundou por Jesus, pois após o mundo tornar-se sujeito, Ele tomou o pecado do mundo. Que ninguém se glorie, portanto, em suas obras, posto que ninguém é justificado por suas ações, mas aquele que é justo recebeu um presente (gratis), sendo justificado pelo Batismo. É a fé, portanto, que nos torna livres (fides nos liberos facit) pelo sangue de Cristo, pois é abençoado aquele cujo pecado é coberto e a quem o perdão é concedido.
~ Epístola LXXIII
Isaque “sentiu o cheiro das suas vestes”. E talvez isso signifique que não somos justificados por obras, mas por fé (non ex operibus, sed ex fide iustificamur), porque a fraqueza da carne é um obstáculo às obras, mas o brilho da fé põe o erro que está nas ações do homem na sombra e merece para ele o perdão de seus pecados.
~ Sobre Jacó e a Vida Feliz (II, 9)
Crê, portanto, que em virtude da fé (in virtute fidei) todos os teus pecados serão perdoados. De fato, leste no Evangelho que o Senhor diz: “A tua fé te salvou” (fides tua te salvum fecit).
~ Explicação do Símbolo (6)
O que isso significa? Que Ele justificou nossa raça não por ações corretas, nem por labutas, nem por escambo e troca, mas por graça somente (chariti monē). Paulo, também, deixa isso claro quando diz: “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus” [Romanos 3:21]. Mas a justiça de Deus (dikaiosynē theou) vem pela fé em Jesus Cristo e não por trabalho e sofrimento.
~ Discursos contra os cristãos judaizantes (VII, 2)
O que quer dizer: “que age pela caridade” (di’ agapēs energoumenē)? Aqui lhes inflige grande ferida, dando a entender que surgiu este equívoco porque a caridade para com o Cristo não tem raízes entre eles. Não se reclama apenas a fé (pistis), mas também a perseverança na caridade (agapē).
~ Comentário em Gálatas (5:6)
“Para declarar sua justiça”. O que é declarar sua justiça? Como a declaração de suas riquezas, não apenas para Ele ser rico em si mesmo, mas para tornar outros ricos... Assim também é a declaração da Sua justiça (endeixin tēs dikaiosynēs autou), não de que Ele próprio é justo, mas que Ele torna de repente justos aqueles que são cheios de chagas podres. E isso deve ser explicado assim: o que é “declarar”, que ele acrescentou: “para que ele seja justo e justificador (dikaiounta) daquele que tem fé em Jesus”. Não duvide: pois não é das obras, mas da fé; não fuja da justiça de Deus, pois é uma bênção em dois sentidos: porque é fácil e também aberta a todos os homens. Mas o que é a “lei da fé” (nomos pisteōs)? É ser salvo por graça (chariti sōthēnai). Aqui ele mostra o poder de Deus, em que não apenas nos salvou, mas também justificou (edikaiōsen), e os levou a gloriar-se, e isso tudo sem necessidade de obras, mas olhando para a fé somente (pistin monēn).
~ Homilia em Romanos (III, 19-26)
Pois fez do justo um pecador, a fim de transformar os pecadores em justos. Ou antes, não foi isso que o Apóstolo asseverou, e sim algo de muito mais sublime... Não disse: Ele o fez pecador, e sim: “Deus o fez pecado” (hamartian epoiēsen). Não declarou: Aquele que não pecara, e sim: Que nem mesmo conhecera o pecado, a fim de que, assegura, não só nos tornássemos justos, mas a própria justiça, e “justiça de Deus” (dikaiosynē theou). Pois esta é a justiça de Deus: quando somos justificados, não por obras (pois nesse caso seria necessário que nenhuma mancha fosse encontrada), mas por graça (chariti), caso em que todo pecado é abolido.
~ Homilia em 2 Coríntios (11)
Não dissertamos tanto a respeito da bondade divina para que, nela fiados, caiamos no pecado... A benignidade de Deus te induz à penitência (metanoia), e não a aumentar os vícios. Deus é benigno? Mas é também justo juiz. Perdoa os pecados? Entretanto dá a cada um segundo suas obras. Ele apaga os pecados aqui pelo batismo e pela penitência; castiga os maus atos no além pelo fogo e os tormentos.
~ Homilia em Efésios (4)
O que significa: O evangelho da justiça? Aquele que suscita justos (dikaious poiousa). Estas palavras farão nascer neles o desejo do batismo, porquanto lhes mostram que o evangelho não somente perdoa os pecados, mas também produz a justiça. (...) Será que te justificarás somente por meio da fé (dia pisteōs monon)? Quanto a nós, rezamos para que adquiras confiança apoiada nas boas obras (apo tōn agathōn ergōn).
~ Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios (II)
AGOSTINHO DE HIPONA (354 – 430)
De fato, a Lei não pode remover o pecado; somente a graça (gratia) pode removê-lo. A Lei, portanto, é boa, porque proíbe as coisas que devem ser proibidas, e ordena que se cumpram as coisas que devem ser feitas. Mas quando alguém presume que poderá cumpri-las com as suas próprias forças, e não pela graça de seu Libertador (gratiam Liberatoris sui), de nada lhe valerá esta presunção; antes, ao contrário, isto até lhe causará dano, dando-lhe a oportunidade de ser dominado pelo desejo de pecados ainda maiores nos quais se verá cair. “Estabelecemos a Lei” (Legem statuimus) significa: colocamos-lhe o seu fundamento. Como, porém, se pode colocar o fundamento da Lei, a não ser pela justiça? Esta justiça, porém, é a que vem pela fé (iustitia quae ex fide est), pois as coisas que não podiam ser cumpridas pela Lei, puderam sê-lo através da fé.
~ Expositio quarundam propositionum ex Epistola ad Romanos
CIRILO DE ALEXANDRIA (c. 376 – 444)
Pois a lei foi instituída ‘por causa das transgressões’ (dia tas parabaseis), como a Escritura declara, ‘para que toda boca seja obstruída (hina pan stoma phragē), e todo o mundo se torne culpado perante Deus, porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada’. Pois não havia ninguém tão avançado na virtude — refiro-me à virtude espiritual — que fosse capaz de cumprir tudo o que fora ordenado, e isso sem defeito. Mas a graça, isto é, o ser justificado por Cristo (to en Christō dikaiousthai), removendo a condenação da lei, liberta-nos pela fé. (...) Não te perturbes, portanto, ao meditares sobre a grandeza de teus pecados passados; antes, sabe que ainda maior é a graça (meizōn hē charis) que justifica o pecador e absolve o ímpio (apoluousa ton asebē). A fé em Cristo, então, é para nós o penhor (arrhabōn) dessas grandes bênçãos; pois é o caminho que conduz à vida e nos leva às mansões do alto; que nos eleva à herança dos santos e nos torna membros do reino de Cristo.
~ Commentarium in Lucam (Homilia 40)
MARCOS, O EREMITA (c. 390 – c. 450)
Alguns, sem cumprir os mandamentos, imaginam que possuem fé verdadeira. Outros cumprem os mandamentos e então esperam o reino como recompensa devida a eles. Ambos estão enganados.
Quando as Escrituras dizem que “Ele recompensará cada um de acordo com suas obras” (Mateus 16:27), não imagine que as obras em si mesmas merecem seja o inferno ou o reino. Ao contrário, Cristo recompensa cada homem de acordo com suas obras serem feitas na fé ou sem fé Nele; e Ele não é um comerciante (emporos) ligado por contrato, mas Deus nosso Criador e Redentor.
Aquele que recebeu o batismo oferece boas obras, não como um pagamento (antidosis), mas para preservar a pureza que nos foi dada.
Existe um pecado que é sempre “para a morte” (1 João 5:16): o pecado pelo qual não nos arrependemos. Pois por esse pecado nem mesmo as orações de um santo serão ouvidas.
O sinal do amor sincero é perdoar as coisas erradas feitas contra nós. Foi com tal amor que o Senhor amou o mundo.
Ninguém é tão bom e misericordioso quanto o Senhor. Mas mesmo Ele não perdoa aos não-arrependidos (tois mē metanoousin).
Um apenas é justo em obras, palavras e pensamentos. Mas muitos são feitos justos (dikaioi ginontai) em fé, graça e arrependimento.
~ Sobre os que pensam tornarem-se justos pelas obras (18, 22, 23, 41, 48, 78, 109)
TEODORETO DE CIRO (c. 393 – c. 458)
O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação (eis dikaiōsin hēmōn). Pois por nossas ofensas Ele passou por Sua paixão, para que pudesse pagar nossa dívida (to chreos ektisē); e para que Sua ressurreição pudesse operar a ressurreição comum de todos (tēn koinēn anastasin), pois por ela recebemos os meios de nossa justificação (tēs dikaiōseōs tas aphormas) e, sendo sepultados com Ele no batismo, recebemos a remissão dos pecados (aphesin hamartiōn).
~ Interpretatio Epistolae ad Romanos (Cap. 4)
BEDA, O VENERÁVEL (c. 673 – 735)
Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras (iustificari hominem per fidem sine operibus), aqueles que entendem por isto que não importa se levam uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de
fé, para mostrar que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão ( ex praecedentibus operibus), porque o dom da justificação vem somente pela fé (per fidem tantum). ~ In
Epistolam Iacobi Expositio (Cap. 2)
TEOFILACTO DE OHRID (c. 1050 – c. 1107)
‘Não aniquilo a graça de Deus’ [Gálatas 2:21]. Tendo estabelecido seu argumento, Paulo faz essa afirmação: ‘Não rejeitarei o dom de Cristo a mim abraçando a lei novamente. Pois, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão. Mas, se por Sua morte o Senhor me justificou — considerou-me como justo (dikaion me elogisato) — totalmente à parte de qualquer obra minha (aneu tôn emôn ergôn), eu não aniquilo Sua graça retornando à lei’.
~ Expositio in Epistolam ad Galatas (Cap. 2, 21)
Mas a Escritura encerrou todos debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo seja dada aos que creem. A lei, conforme o Apóstolo afirma, é incapaz de livrar os homens do pecado; de fato, ela teve o efeito de envolvê-los (synapokleisthai) no pecado. Isso significa que a lei nos mostra que somos pecadores e nos impele a desejar a remissão dos pecados e correr para o único que pode providenciá-la: Cristo. Os judeus nem percebiam seus pecados, nem desejavam a remissão deles. Deus deu a lei para ‘encerrá-los’, isto é, confiná-los e restringi-los com repreensões, revelar a eles seus pecados e compeli-los a buscar o caminho do perdão. Esse caminho é a fé em Cristo, pela qual somos abençoados e considerados justos (dikaioi logizometha).
~ Expositio in Epistolam ad Galatas (Cap. 3, 22)
TEÓFANO O RECLUSO (1815 – 1894)
A quem Deus propôs como propiciação (umilostivleniye), mediante a fé, no Seu sangue, para demonstração da Sua justiça por ter Deus, na Sua paciência, deixado impunes os pecados outrora cometidos. [...] A fim de que isso se realizasse, Ele deu Seu Filho Unigênito como propiciação por todos os crentes — não apenas para que, por causa d'Ele, seus pecados fossem perdoados, mas para que os crentes pudessem se tornar puros e santos em seu interior (vnutrenne chistymi i svyatymi) recebendo a graça do Espírito Santo pela fé.
(...)
O sangue de Cristo, por seu poder, já lavou os pecados de todo o mundo; contudo, cada um torna-se pessoalmente limpo por ele quando, mediante a fé, o recebe em si mesmo — sendo por ele aspergido e borrifado (okroplyayetsya i oroshayetsya). Isso se realiza misticamente na fonte batismal (v kupeli) da água e, posteriormente, na fonte de lágrimas (v istochnike slyoz) do arrependimento.
(...)
Deus viu que as pessoas não podiam se firmar no caminho reto por si mesmas; por isso, Ele desejou infundir nelas a Sua justiça (perelit' v nikh Svoyu pravdu) — tal como se infunde sangue fresco em um organismo infectado (svezhuyu krov' v zarazhennyy organism) — e assim declarar e manifestar essa justiça nelas. [...] O crente não apenas recebe o perdão, mas é vitalizado interiormente por essa nova vida.”
~ Interpretação da Epístola de São Paulo aos Romanos (Cap. 1-8)
