Justificação pela fé - Imputação - Romanos




IRINEU DE LYON (c. 130 – c. 202)

E que o homem não foi justificado por essas coisas [circuncisão e sábados], mas que elas foram dadas como um sinal para o povo, este fato o demonstra: que o próprio Abraão, sem circuncisão e sem observância de sábados, “creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (reputatum est ei ad iustitiam); e ele foi chamado o amigo de Deus”. Então, novamente, Ló, sem circuncisão, foi tirado de Sodoma, recebendo a salvação de Deus. Assim também fez Noé, agradando a Deus, embora fosse incircunciso... Enoque, também, agradando a Deus sem circuncisão... Além disso, toda a restante multidão daqueles homens justos que viveram antes de Abraão, e daqueles patriarcas que precederam Moisés, foram justificados independentemente das coisas mencionadas acima e sem a lei de Moisés. 

(...) 

E que o Senhor não revogou os preceitos naturais da lei (naturalia legis), pelos quais o homem é justificado — os quais também aqueles que foram justificados pela fé (per fidem iustificati) e que agradaram a Deus observaram antes da entrega da lei — mas que Ele os estendeu e cumpriu, é demonstrado por Suas palavras: “Pois”, observa Ele, “foi dito aos antigos: Não cometerás adultério. Mas eu vos digo: qualquer que olhar para uma mulher para a cobiçar, já cometeu adultério com ela em seu coração”. E novamente: “Foi dito: Não matarás. Mas eu vos digo: qualquer que se irar contra seu irmão sem motivo, estará sujeito a julgamento”. E: “Foi dito: Não jurarás falso. Mas eu vos digo: Não jureis de maneira nenhuma; mas seja o vosso falar: Sim, sim; Não, não”.

Adversus Haereses (Livro IV, 16, 2; 13, 1)

 

ORÍGENES DE ALEXANDRIA (c. 185 – c. 253)

Assim, em conexão com o perdão das iniquidades e a cobertura dos pecados, e o fato de que o Senhor não imputa pecados, o Apóstolo adequadamente diz que apenas sobre a base de que ele crê naquele que justifica o ímpio (qui iustificat impium) é que a justiça será imputada a um homem, mesmo se ele ainda não produziu as obras da justiça (etiamsi non habuerit opera). Pois a fé que crê naquele que justifica é o começo do ser justificado por Deus. E essa fé, quando é justificada, é firmemente estabelecida no solo da alma como uma raiz que recebeu chuva (velut radix recepto imbre), de modo que começa a ser cultivada pela lei de Deus e ramos nascem dela, os quais trazem o fruto das obras. A raiz da justiça, portanto, não cresce a partir das obras, mas é o fruto das obras que cresce da raiz da justiça (radix iustitiae ex operibus non crescit, sed ex radice iustitiae fructus operum crescit); raiz esta, é claro, de justiça que Deus atribui mesmo sem obras (sine operibus).

~ Commentarium in Epistolam ad Romanos (Livro IV, 1)


CIPRIANO DE CARTAGO (c. 210 – 258)

E, com respeito a Abraão, aquela bênção anterior pertencia ao nosso povo. Pois, se Abraão creu em Deus e isso lhe foi creditado como justiça (deputatum est illi ad iustitiam), certamente todo aquele que crê em Deus e vive pela fé é considerado justo (justus invenitur), já é abençoado no fiel Abraão e é apresentado como justificado (iustificatus ostenditur); como prova o bendito Apóstolo Paulo, quando diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça. Sabei, pois, que os que são da fé, esses são filhos de Abraão. Mas a Escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou antecipadamente a Abraão que todas as nações seriam abençoadas nele; portanto, os que são da fé são abençoados com o fiel Abraão”. Por isso, no Evangelho, encontramos que “das pedras são suscitados filhos a Abraão, isto é, são reunidos dentre os gentios”.

~ Epístola LXII

 

HILÁRIO DE POITIERS (c. 310 – 367)

'No qual também fostes circuncidados com uma circuncisão não feita por mãos, no despojar do corpo da carne, mas com a circuncisão de Cristo (circumcisione Christi), tendo sido sepultados com Ele no batismo, no qual também fostes ressuscitados com Ele pela fé na operação de Deus (fidem operationis Dei), que O ressuscitou dos mortos'. Somos circuncidados não com uma circuncisão carnal, mas com a circuncisão de Cristo, isto é, renascemos em um novo homem; pois, sendo sepultados com Ele em Seu batismo, devemos morrer para o velho homem, porque a regeneração do batismo tem a força da ressurreição (vis est resurrectionis). A circuncisão de Cristo não significa o despojar do prepúcio, mas o morrer inteiramente com Ele, e por essa morte viver, de agora em diante, inteiramente para Ele. Pois ressuscitamos n’Ele pela fé em Deus, que O ressuscitou dos mortos; pelo que devemos crer em Deus, por cuja operação Cristo foi ressuscitado dos mortos, pois nossa fé ressurge n’Ele e com Cristo.

~ De Trinitate (Livro IX, 9) 

Ele estabelece todo o mérito da fé (fidei meritum) na confissão de uma veneração piedosa. A justiça que é da fé (iustitia quae ex fide est) diz assim: ‘Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, para trazer do alto a Cristo). Ou: Quem descerá ao abismo? (isto é, para fazer subir a Cristo dentre os mortos). Mas que diz a Escritura? A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração; isto é, a palavra da fé que pregamos: porque, se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo’. A fé aperfeiçoa o homem justo (iustum fides perficit): como está escrito: ‘Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça’ (reputatum est ei ad iustitiam). [...] Para a fé piedosa, que confia implicitamente na onipotência de Deus, os limites da fraqueza humana não são barreira. Desprezando tudo o que é débil e terreno em si mesma, ela crê na promessa divina, ainda que esta exceda as possibilidades da natureza humana. Nada é mais justo do que a fé (nihil est fide iustius). Pois, assim como na conduta humana são a equidade e a moderação que recebem nossa aprovação, o que é mais justo para o homem, em relação a Deus, do que atribuir onipotência (omnipotentiam ei tribuere) dAquele cujo poder ele percebe ser sem limites?

~ De Trinitate (Livro X, 68)


CIRILO DE JERUSALÉM (c. 313 – 386)

Pois há um tipo de fé, a dogmática (to dogmatikon), que envolve um assentimento da alma (sygkatathesis tēs psychēs) sobre algum ponto particular; e ela é proveitosa para a alma, como diz o Senhor: ‘Quem ouve a Minha palavra e crê n’Aquele que Me enviou, tem a vida eterna e não entra em juízo’. Oh, a grande bondade de Deus! Pois os justos levaram muitos anos para agradá-Lo; mas o que eles conseguiram obter por muitos anos de bem-agradar (euarestēseōs), isso Jesus agora te concede em uma única hora. Pois, se creres que Jesus Cristo é o Senhor e que Deus O ressuscitou dos mortos, serás salvo e transportado para o Paraíso por Aquele que ali introduziu o ladrão. E não duvides se isso é possível; pois Aquele que, neste sagrado Gólgota, salvou o ladrão após uma única hora de crença, o mesmo salvará a ti também ao creres.

Mas há um segundo tipo de fé, que é concedida por Cristo como um dom da graça (charismatikon). [...] Esta fé, dada pela graça do Espírito, não é meramente doutrinária (ou monon dogmatikē), mas também opera coisas acima do poder humano. Pois quem quer que tenha esta fé, dirá a este monte: ‘Passa daqui para acolá’, e ele passará. Pois sempre que alguém disser isso em fé, crendo que acontecerá e não duvidando em seu coração, então ele recebe a graça.

~ Catecheses (V, 10-11) 


GREGÓRIO DE NISSA (c. 335 – c. 395)

É impossível aproximar-se de Deus, a menos que a fé medeie e traga a alma que busca à união com a natureza incompreensível de Deus (akatalepton physin). Pois, deixando para trás a curiosidade que provém do conhecimento (gnostikēn polypragmosynēn), Abraão, diz o Apóstolo, “creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (elogisthē autō eis dikaiosynēn). “Ora, não foi escrito por causa dele”, diz o Apóstolo, “mas por nossa causa”, para que Deus credite aos homens por justiça a sua fé (pistin), e não o seu conhecimento (gnōsin).

~ Contra Eunômio (Livro II)


CIRILO DE ALEXANDRIA (c. 376 – 444)

Pois a lei foi instituída ‘por causa das transgressões’ (dia tas parabaseis), como a Escritura declara, ‘para que toda boca seja obstruída (hina pan stoma phragē), e todo o mundo se torne culpado perante Deus, porque pelas obras da lei nenhuma carne será justificada’. Pois não havia ninguém tão avançado na virtude — refiro-me à virtude espiritual — que fosse capaz de cumprir tudo o que fora ordenado, e isso sem defeito. Mas a graça, isto é, o ser justificado por Cristo (to en Christō dikaiousthai), removendo a condenação da lei, liberta-nos pela fé. (...) Não te perturbes, portanto, ao meditares sobre a grandeza de teus pecados passados; antes, sabe que ainda maior é a graça (meizōn hē charis) que justifica o pecador e absolve o ímpio (apoluousa ton asebē). A fé em Cristo, então, é para nós o penhor (arrhabōn) dessas grandes bênçãos; pois é o caminho que conduz à vida e nos leva às mansões do alto; que nos eleva à herança dos santos e nos torna membros do reino de Cristo.

~ Commentarium in Lucam (Homilia 40)


TEODORETO DE CIRO (c. 393 – c. 458)

O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação (eis dikaiōsin hēmōn). Pois por nossas ofensas Ele passou por Sua paixão, para que pudesse pagar nossa dívida (to chreos ektisē); e para que Sua ressurreição pudesse operar a ressurreição comum de todos (tēn koinēn anastasin), pois por ela recebemos os meios de nossa justificação (tēs dikaiōseōs tas aphormas) e, sendo sepultados com Ele no batismo, recebemos a remissão dos pecados (aphesin hamartiōn).

~ Interpretatio Epistolae ad Romanos (Cap. 4) 


BEDA, O VENERÁVEL (c. 673 – 735)

Embora o apóstolo Paulo tenha pregado que somos justificados pela fé sem as obras (iustificari hominem per fidem sine operibus), aqueles que entendem por isto que não importa se levam uma vida malvada ou fazem coisas perversas e terríveis, desde que creiam em Cristo, porque a salvação é pela fé, cometeram um grande erro. Tiago aqui expõe como as palavras de Paulo devem ser compreendidas. É por isso que ele usa o exemplo de Abraão, a quem Paulo também usou como um exemplo de fé, para mostrar que o patriarca também realizou boas obras em função da sua fé. Por isso, é errado interpretar Paulo de modo a sugerir que não importava se Abraão colocou a sua fé em prática ou não. O que Paulo queria dizer era que não se obtém o dom da justificação com base em méritos derivados de obras realizadas de antemão (ex praecedentibus operibus), porque o dom da justificação vem somente pela fé (per fidem tantum).

~ In Epistolam Iacobi Expositio (Cap. 2) 


TEOFILACTO DE OHRID (c. 1050 – c. 1107)

‘Não aniquilo a graça de Deus’ [Gálatas 2:21]. Tendo estabelecido seu argumento, Paulo faz essa afirmação: ‘Não rejeitarei o dom de Cristo a mim abraçando a lei novamente. Pois, se a justiça vem pela lei, então Cristo morreu em vão. Mas, se por Sua morte o Senhor me justificou — considerou-me como justo (dikaion me elogisato) — totalmente à parte de qualquer obra minha (aneu tôn emôn ergôn), eu não aniquilo Sua graça retornando à lei’.

Expositio in Epistolam ad Galatas (Cap. 2, 21)

Mas a Escritura encerrou todos debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo seja dada aos que creem. A lei, conforme o Apóstolo afirma, é incapaz de livrar os homens do pecado; de fato, ela teve o efeito de envolvê-los (synapokleisthai) no pecado. Isso significa que a lei nos mostra que somos pecadores e nos impele a desejar a remissão dos pecados e correr para o único que pode providenciá-la: Cristo. Os judeus nem percebiam seus pecados, nem desejavam a remissão deles. Deus deu a lei para ‘encerrá-los’, isto é, confiná-los e restringi-los com repreensões, revelar a eles seus pecados e compeli-los a buscar o caminho do perdão. Esse caminho é a fé em Cristo, pela qual somos abençoados e considerados justos (dikaioi logizometha).

~ Expositio in Epistolam ad Galatas (Cap. 3, 22)


TEÓFANO O RECLUSO (1815 – 1894)

A quem Deus propôs como propiciação (umilostivleniye), mediante a fé, no Seu sangue, para demonstração da Sua justiça por ter Deus, na Sua paciência, deixado impunes os pecados outrora cometidos. [...] A fim de que isso se realizasse, Ele deu Seu Filho Unigênito como propiciação por todos os crentes — não apenas para que, por causa d'Ele, seus pecados fossem perdoados, mas para que os crentes pudessem se tornar puros e santos em seu interior (vnutrenne chistymi i svyatymi) recebendo a graça do Espírito Santo pela fé.

(...) 

O sangue de Cristo, por seu poder, já lavou os pecados de todo o mundo; contudo, cada um torna-se pessoalmente limpo por ele quando, mediante a fé, o recebe em si mesmo — sendo por ele aspergido e borrifado (okroplyayetsya i oroshayetsya). Isso se realiza misticamente na fonte batismal (v kupeli) da água e, posteriormente, na fonte de lágrimas (v istochnike slyoz) do arrependimento.

(...) 

Deus viu que as pessoas não podiam se firmar no caminho reto por si mesmas; por isso, Ele desejou infundir nelas a Sua justiça (perelit' v nikh Svoyu pravdu) — tal como se infunde sangue fresco em um organismo infectado (svezhuyu krov' v zarazhennyy organism) — e assim declarar e manifestar essa justiça nelas. [...] O crente não apenas recebe o perdão, mas é vitalizado interiormente por essa nova vida.”

~ Interpretação da Epístola de São Paulo aos Romanos (Cap. 1-8)